quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Cristianismo trabalha essencialmente com vida


Reflexões sobre o cristianismo e seus desdobramentos como gerador de vida em contrapartida ao cristianismo utilitarista.


Texto: Evangelho de João, 4.1-26.

Se o cristianismo lida necessariamente com vida, então ele labora em primeiro lugar com questões fundamentais a própria vida do ser humano. Então nesse sentido, Jesus sendo Deus, se fez homem e, veio morrer na cruz. Não para resolver questiúnculas, mas para dar significado a vida do homem.
Uma das maiores crises, (se não a maior) que a humanidade enfrenta, inclusive muitos cristãos; sem dúvida é a crise de significado, crise existencial. Falta-nos a felicidade, falta-nos o encanto pela vida, encanto semelhante àquele que tínhamos quando éramos crianças.
Agora, a pergunta que fica é a seguinte: onde está a vida abundante que Jesus prometeu? Assevero que em Jesus há vida plena, vida abundante, vida com significado. Mas a igreja moderna ao invés de lidar com a questão maior, está lamentavelmente se perdendo nos detalhes.
A leitura atenta do encontro de Jesus com a mulher samaritana, pode jogar um pouco de luz sobre essa questão, e mais, pode ainda nos indicar os motivos pelos quais não estamos tendo vida plena de significado.

1. O cristianismo lida não com paliativos, e sim com valores eternos. V 13-14.

Jesus usa o poço e a água como “ponte” para falar com a samaritana sobre a sede interior não saciada que ela possuía. O texto é muito claro ao mostrar que a samaritana era uma mulher mal resolvida, cheia de conflitos interiores, e com uma vida vazia de significado. E que vivia querendo encher o vazio do seu interior através de casamentos.
O que Jesus está oferecendo a esta mulher não era trocar de religião, Jesus está oferecendo um tipo de vida que vale a pena ser vivido, ou melhor, ele está lhe dando a oportunidade de conhecer um estilo de vida com significado. A esse tipo de vida Jesus chama de vida eterna.
Na verdade possuímos um conceito errado do que seja vida eterna, pois aprendemos que vida eterna é uma coisa a ser desfrutada depois da morte. Contudo, segundo Cristo vida eterna é uma qualidade de vida que adquirimos à medida que caminhamos com ele, e o conhecemos. Vejamos as próprias palavras de Jesus:
“... A água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna”. V 14.
A questão não é se existe vida depois da morte, a grande pergunta é se existe vida agora, vida ao nosso alcance hoje.
Todo ser humano nasce com uma sede intrínseca por Deus. O grande fracasso é que as pessoas tentam saciar essa sede com coisas materiais e passageiras. Os muitos casamentos da mulher samaritana não indicam que ela era uma adúltera, mas aponta para alguém que busca significado para a vida através do casamento.
A igreja contemporânea vive exatamente esse dilema, pois vê nas coisas efêmeras a resposta para sua falta de significado. Daí se explica porque existem tantas campanhas nas igrejas para adquirir “coisas”.
Afirmo que a resposta para a falta de significância na vida das pessoas, é essencialmente a carência de um relacionamento genuíno com Jesus. Advogo que Jesus é a resposta.
O homem foi criado para se realizar no próprio Deus, ou nas palavras de Agostinho chamado Santo: “Fecisti nos ad Te et inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te”. (criaste-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós). Ou ainda como escreveu o russo Fiodor Dostoyesky: “o coração do homem tem um vazio do tamanho de Deus”. O grande pensador britânico C.S Lewis, disse a mesma coisa com outras palavras: “Deus não pode nos dar felicidade alguma além de si mesmo, pois ela não existe fora dele”.

2. O cristianismo não lida com fórmulas mágicas. V.15.

A mulher samaritana além de imaginar a água que Jesus ofereceu em termos físicos, também pensou que fosse uma espécie de água mágica. Que iria lhe estancar a sede, e a pouparia do trabalho fatigante de todos os dias ter de subir ao monte e tirar água do poço.
As pessoas estão se convertendo ao cristianismo exatamente com essa mentalidade, de um cristianismo mágico. Em que você se torna participante de determinada igreja, e pronto, todos os seus problemas estão resolvidos. Bom ponto de partida é esse, para falarmos sobre conversão. Porque a mulher samaritana era uma ótima religiosa, sabia até discutir questões técnicas sobre o lugar ideal para a adoração, mas que quando vai tratar dos desdobramentos que sua religião gera em sua vida, deixa claro que a mera aderência à religiosidade não leva a nada.
Gostamos de rotular as pessoas que não participam do nosso grupo religioso de não convertidos, também chamamos de convertidos àqueles que freqüentam regularmente a igreja. Agora, a grande pergunta repousa sobre o conceito que se tem a respeito do que significa ser convertido a Jesus.
Muitos daqueles que não freqüentam nossas reuniões, mas que seguem os princípios ensinados por Jesus, possuem muito mais lampejos de conversão do que muitos que se advogam arrogantemente ser cristãos convertidos. Um grande pensador já disse que Deus possui ovelhas que não são do nosso aprisco. Também é digno de ser lembrado o que Jesus disse a respeito de um centurião romano, por causa de sua fé, vejamos: “Eu lhes digo que muitos viram do oriente e do ocidente, e se sentarão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. Mais os súditos do reino serão lançados para fora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes”. Evangelho de Mateus 8.11-12.
Portanto, as igrejas estão cheias de pessoas que mudaram de religião, mas que ainda não entenderam as implicações do que significa seguir a Cristo.
Conversão significa mudança de direção, de rota. Então quando nos convertemos a Cristo, implica dizer que estamos dispostos a caminhar com ele, e construirmos uma nova história de vida em sociedade com ele, assim sendo, não há mágicas no cristianismo. Não adianta receber oração forte de quem quer que seja, para consertar seu relacionamento conjugal, nós levamos 5, 10 anos para estragar nossos casamentos, e queremos que seja arrumado em uma oração, que absurdo, que simplismo da nossa parte acreditar nessas promessas miraculosas, para não dizer mentirosa.
A água que Jesus está oferecendo é uma mudança de mentalidade, pois essa mulher estava presa aos moldes de sua religião. Seria prudente destacar que Jesus ao falar com a mulher, ele usa uma linguagem tipológica, para significar que a água que ela vinha bebendo era sua religião engessada em regras e ritos ineficazes, e a água que ele estava querendo dar a ela era uma nova ordem de coisas, a saber, os valores do Reino de Deus por meio do Espírito Santo.
Isso fica patente nos versículos 12 a 14, em que a samaritana evoca o personagem Jacó, para deixar claro que tipo de herança espiritual ela possuía. Então Jesus diz que quem bebesse dessa água, simbolizando o antigo pacto, voltaria a ter sede novamente. Mas quem bebesse da água que ele desse (nova aliança) nunca mais teria sede, ou seja, encontraria significado para a vida.
Talvez não queiramos aceitar, mas no cristianismo não cai nada do céu, não existe uma espécie de “abracadabra” celestial, não existe mágica. O cristianismo é uma caminhada em que o ser humano anda ao lado de Jesus e constroem junto com ele.

3. O cristianismo não lida com conceitos sem vida, antes trabalha nossa interioridade. V 16-24.

A mulher pede a Jesus para que ele lhe dê um pouco dessa água viva, no que Jesus confronta as questões mais profundas pelas quais ela vinha atravessando. Jesus pede que ela chame o marido, e sabemos que ela já havia tido cinco e que agora o sexto não era propriamente seu marido, talvez um amante. Agora passemos a pensar na condição interior dessa mulher, que já havia passado na mão de seis maridos, isso numa cultura extremamente machista em que o homem poderia ter várias mulheres, em contra partida a mulher que fosse de mais de um homem era considerada adúltera.
O curioso é que quando Jesus chama a mulher samaritana para tratar mais de perto do problema, ela muda de assunto e começa a tratar de conceitos religiosos.
É muito mais fácil discutir questões religiosas, do que falar de como eu me comporto como marido, de como eu reajo diante das trivialidades do casamento. É mais conveniente estudar sobre anjos, sobre profecias, sobre os acontecimentos do Apocalipse; do que falar do tipo de pessoa que eu sou quando não estou debaixo da supervisão das pessoas a quem quero impressionar.
Jesus está querendo dar vida a esta mulher, e ela está preocupada com qual é o lugar correto da adoração. Que é o que acontece com grande freqüência no meio evangélico, as pessoas estão preocupadas com louvor, com o jeito certo de cantar, de bater palmas, de fazer gestos. No entanto, a família muitas vezes está toda desmantelada.
Já que falamos da música, vamos também falar dos pregadores que se preocupam em fazer grandes apresentações de seus sermões, quando, no entanto, são péssimos pais, horríveis no trato com as pessoas.
O que Jesus deixou claro é que não adianta ter todos os trejeitos religiosos, saber papagaiar os credos e catecismos, falar línguas estranhas e, entretanto ser uma pessoa seca e sem vida.
Mesmo a mulher mudando de assunto, Jesus não perde o trilho do raciocínio. Pelo contrário, dentro da resposta que ele dá à mulher, ele recobra o eixo da questão dizendo que o lugar da adoração não era um lugar fixo. Mas que o santuário da adoração a Deus seria a interioridade das pessoas, “em espírito e em verdade”, ou seja, ele estava dizendo que não adianta tentar se esconder atrás de uma aparência de piedade religiosa, pois o homem encontra-se com Deus na própria essência do seu ser.

"Isso fica feliz em ser útil"
João Ferreira Leite Luz

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