quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Luto, misericórdia e esperança


O Gênesis em sermões expositivos


Texto: Gênesis, 50

Não deve ser tarefa fácil lidar com a tríade: luto, misericórdia e esperança, ou seja, em meio à dor pela perca de alguém que muito amamos termos que usar de misericórdia com aqueles que nos traiu, e ainda manter a esperança de um futuro bonito e melhor.
O texto que encerra o livro do Gênesis nos conta uma história em que José vive esta estranha mistura de sentimentos. Pois ele está sofrendo pelo luto de seu pai, e ainda tem que usar de misericórdia com aqueles que tentaram lhe destruir, e apesar de tudo consegue manter a esperança no futuro.
Se nós conseguirmos fazer a leitura correta desse texto, vamos perceber que a história de José, também é a história de todos nós. Por que a vida é assim mesmo, todos sofrem a dor da morte, pois ninguém é eterno. Na vida somos feridos e magoados, na maioria das vezes por quem mais amamos, não obstante temos que manter viva a esperança de que um dia vai valer a pena ter lutado tanto.
Gostaria de ir mais longe e dizer que a vida é toda constituída por estes sentimentos. Uma vez que todos sofrem, seja pela morte de alguém; pela traição, pela dificuldade financeira, enfim os sofrimentos são vários e de diversas fontes.
Quem na vida nunca foi ferido, magoado e humilhado por alguém que queria bem? E depois perdoou todas as ofensas. Todos já passamos por isso. E o curioso é que continuamos caminhando, acreditando, sonhando que a vida algum dia será melhor, e que a despeito de tudo isso vale a pena continuar. Isto, em minha opinião é ser humano, é ser gente. Gente como eu e você que não desiste nunca, gente de uma espiritualidade parecida com a de Jesus de Nazaré.
Agora, a pergunta é a seguinte:- Como que um episódio com sentimentos tão ambíguos quanto este: luto – misericórdia – esperança, pode nos ajudar numa época tão hedonista, egoísta e centrada no imediatismo do aqui e agora?

Vamos pinçar algumas lições:

Luto,1. A dor não é necessariamente um mal, aliás, pode até se tornar uma benção.
(José sofre pela morte de seu pai).

Parece um tanto estranho e fora de moda, falar do beneficio que as tribulações podem trazer. Em uma sociedade preocupada com o bem estar, com estética, beleza e prazer. Uma geração pós – moderna mergulhada no hedonismo.

Hedonismo [Dogr.hedoné,'prazer',+-ismo.]
Doutrina que considera que o prazer individual e imediato é o único bem possível, princípio e fim da vida moral:
“A teoria socrática do bom e do útil, da prudência,.... produz, entendida pela índole voluptuária de Aristipo, o hedonismo, ou a filosofia, em que toda a humana bem-aventurança se resolve no prazer" (Latino Coelho, A Oração da Coroa, pp. CCXXXVI-CCXXXVII).
(Novo dicionário Aurélio)

A grande tristeza é que Freud parece ter razão quando disse que o ser humano vive em função de evitar a dor e buscar o prazer.
Aqui não existe qualquer crítica a uma vida feliz e prazerosa. O mal é que o prazer, ou seja, uma vida isenta de dores, doenças e sofrimento. Está virando uma espécie de obsessão nas igrejas evangélicas.
Existe um lado bom no sofrimento, pois ele revela quem eu sou. É impressionante o poder que as intempéries da vida possuem, visto que na hora da dor vem à tona meu lado sombrio, que de outra sorte eu não o mostraria. E é só a partir do conhecimento de quem eu sou na minha interioridade, é que tenho a possibilidade de trabalhar minhas questões mais profundas. Vejamos isso nas palavras do próprio Jesus:

“Eu sou a videira verdadeira, e meu pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda”.
Evangelho de João 15. 1-2

Em outras palavras, é quando crescem as arestas que se têm condições de podá-las, é quando vem à tona meu lado feio, é que posso começar a trabalhá-lo.
As dificuldades revelam quem eu sou, até que ponto eu creio e espero em Deus. E mais, mostra o quanto eu estou disposto a sofrer e continuar caminhando com Deus.

Misericórdia,
2. A misericórdia para com o próximo nos faz imitar a divindade, nos deixa mais parecidos com Jesus.
(José foi compassivo com seus irmãos).

Falar sobre misericórdia, sobre perdoar, é muito fácil. Coisa difícil é ser misericordioso com aqueles que nos ofendem, que nos ferem.
Hoje na atualidade, nas igrejas chamadas pentecostais dá-se uma ênfase muito grande em dons espirituais, na busca do poder do Espírito. No entanto, estamos esquecendo de que a misericórdia também é um dom (dádiva) a ser buscada, se não vejamos o que diz a própria bíblia:

“Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensino, ensine; se é dar ânimo, que assim faça; se é contribuir, que contribua generosamente, se é exercer liderança, que a exerça com zelo, se é mostrar misericórdia, que faça com alegria”.
Romanos 12.6-8.

A misericórdia é uma moeda com duas caras, porquanto hoje usamos de misericórdia com alguém, e, amanhã seremos nós que precisaremos que se use de compaixão para conosco. Jesus no sermão do monte disse isso nos seguintes termos:

“Bem – aventurados (felizes) os misericordiosos, pois obterão misericórdia”.
Evangelho de Mateus 5.7

Segundo a bíblia, é só quando aprendemos a perdoar, que Deus também nos perdoa. Que foi exatamente o que Jesus quis dizer quando ensinou seus discípulos a orarem:

“Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos nossos devedores”.
Evangelho de Mateus 6.12

Acredito que a vida só vale a pena, em função do bem que se fizer ao próximo. Agora, se como seres humanos e principalmente como igreja cristã nós não aprendermos a ter compaixão por aqueles que tropeçam. De fato a vida não terá valido a pena.

Esperança,3. A esperança é uma espécie de alimento da alma, sem a qual nem um ser humano sobrevive.
(José tem esperanças de um futuro melhor, chegando ao ponto de dar ordens para que quando saíssem do Egito era para levarem seus ossos).

Eu estou ciente de que a bíblia afirma que, o alimento para a saúde da alma é a própria palavra de Deus. No entanto, gostaria de observar que, sem a esperança ninguém consegue ler a bíblia adequadamente, pois é segundo a esperança de se cumprir àquilo que Deus disse na bíblia, é que vale a pena esperar.
Acredito que não exista assunto mais adequado para fechar essa série de estudos no livro do Gênesis como o tema da esperança, uma vez que nesse momento tão confuso que a igreja cristã atravessa, o que mais precisamos é de esperança.

Passemos a palavra a um mestre do púlpito:

Esperança

Esperar algo que nem sequer sabemos o que é? Desejar uma coisa que não imagino o que possa ser? Talvez seja essa a nossa reação quando nos deparamos com o conceito de esperança. Esperança e o conhecimento nunca se encontram. Nunca esperamos o que sabemos e nunca sabemos o que esperamos. Nesse sentido, a esperança é mais nobre que a própria fé.
Na fé, sabemos o que queremos. Temos um alvo. Na fé temos um alicerce em que baseamos nossa certeza: o caráter de Deus. Na esperança, não temos nenhuma indicação do que possa acontecer no futuro, tudo é difuso. Entretanto, na esperança há uma força que nos diz: vale a pena continuar.
Se você perguntar porque vale a pena continuar, não obterá respostas. Se perguntar, para que lutar, não obterá qualquer explicação. A esperança não se explica, não oferece respostas. Ela apenas manda continuar acreditando que de alguma maneira, por alguma razão , vale a pena viver, amar, sonhar e planejar para o futuro.
Abraão, diz-nos a bíblia, creu até contra a esperança. Quando nada parecia indicar que poderia dar certo, continuou esperando.
Esperança é desejar o que não depende de nós. Quando podemos fazer, não nos cabe esperar, trata-se de querer e realizar. Ninguém espera aquilo que é capaz. Esperar é para os falidos, pois é um desejo cuja satisfação não depende das pessoas. Esperança é um grito que nasce no espírito e que proclama: “apesar de tudo, de alguma forma, não sei como, vai dar certo!” Esperança é, nas cinzas da angústia e do desespero, poder dizer: O melhor ainda está por vir!

A presença imperceptível de Deus pgs. 43-44
Editora Doxa produções


Que o Senhor Jesus nos de a esperança de um amanhã melhor, para o futuro da humanidade, e também para a igreja cristã. Amém.

Fuerunt mihi lacrimae meace panes – as minhas lágrimas são o meu pão
João Ferreira Leite Luz

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