quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Jesus dá o troféu da bondade a um estranho


Reflexões sobre a realidade de espiritualidade fora dos portões da igreja institucional.


Texto: Evangelho de Lucas, 10.25-37

A imago Dei (imagem de Deus) não foi totalmente destruída pelo pecado nos seres humanos, ainda é possível ver traços de Deus em pessoas comuns. Ao contrário do que nós pensamos, podemos ver Deus sendo manifesto através do gesto de pessoas que não pertencem necessariamente ao nosso círculo religioso. Muitas vezes as manifestações divinas vêm de onde menos esperamos, isso porque a imagem de Deus no ser humano o habilita a realizar coisas nobres e dignas. Tem que ser dito que o lugar de onde esperamos a maior demonstração de piedade, de solidariedade e de amor ao próximo. Infelizmente não estamos encontrando, pois, o cristianismo como se vê hoje na atualidade é uma instituição falida, por essa razão quando quisermos ver sinais do Reino, não devemos olhar para igreja-instituição e sim para “igreja-pessoas”, porquanto, Deus tem se manifestado através de pessoas que não pertencem a uma determinada igreja, mas, na sua essência são verdadeiros cristãos. O texto de Lucas 10 é intrigante, uma vez que, Jesus conta uma história em que o herói não é o religioso que todos consideravam piedoso, e sim, o samaritano considerado pecador, e ainda existe um agravante, pois judeus e samaritanos se odiavam devido a questões raciais e religiosas. Então a graça divina é manifestada por intermédio de quem menos se esperava. É curioso que às vezes a “fé aparece onde menos se espera e vacila onde deveria florescer”.
Sugiro que uma leitura mais atenta do texto pode jogar um pouco de luz sobre esse assunto.

1. O cristianismo não pode ser reduzido a mero conhecimento, desprovido da prática. Vv 26-29.

O mestre da lei sabia codificar com maestria suas doutrinas, mas entre o conhecimento e prática havia um grande abismo.
Sabemos papagaiar doutrinas, credos, catecismos; citamos a cartilha evangélica de cor. Só que o “vazio entre nossa ortodoxia e nossa ortopraxia necessita ser nivelado”.
A credito que essa seja uma das piores crises que os lideres cristãos estão atravessando na atualidade, não conseguir traduzir em atitudes concretas aquilo que eles vociferam de cima dos púlpitos de suas igrejas. Talvez essa seja a diferença mais significativa entre os pregadores contemporâneos e os pregadores do primeiro século, ou nas palavras do padre Antônio Vieira:

“... O que converte o mundo são as ações, a vida, o exemplo e as obras. Antigamente convertia-se o mundo; hoje, porque não se converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, ao passo que antigamente pregavam-se palavras e obras...”

É uma tristeza constatar que o mestre da lei sabia o que devia fazer, mas não fazia, e isso fica claro no versículo 29, em que ele tenta se justificar perguntando: “E quem é o meu próximo”

2. Devemos agir com coerência com o título que advogamos possuir. Vv 30-32.

O que se espera de um ladrão? Que ele roube, que ele espanque e mate. Pois ele é um ladrão, portanto, age em coerência com aquilo que ele é. No entanto, o sacerdote e o levita agem de modo contrário do que se esperava que agissem, ou seja, foram incoerentes com aquilo que eram - religiosos.
O que legitima o cristianismo é a prática de se viver como cristão, temos que ser uma profecia sem palavras no meio da sociedade. Vivemos um período em que o cristianismo enfrenta uma grande crise de credibilidade, devido a esse distanciamento de se viver com o mínimo de coerência com aquilo que se prega nas igrejas, infelizmente estamos sendo conhecidos como moralistas apenas, e não como praticantes dessa moral. Que pena!

3. A prática fundamental da religião deve ser o amor.Vv 31-33.

O amor sem o acompanhamento da verdade pode degenerar em libertinagem, mas na ordem o amor deve vir em primeiro lugar.
Tendemos a valorizar o conhecimento da verdade em detrimento da prática do amor. Só que o problema relacionado a isso é que a verdade sem o amor tende a descriminação, pois, a verdade só vê o certo e o errado, não tem espaço para o perdão. Como exemplo temos o caso da mulher adúltera em João capítulo 8, em que os acusadores da mulher só vêem a verdade de que os adúlteros tem que ser apedrejados até a morte, não há lugar para a misericórdia, para o amor que sempre dá uma segunda chance.
Em nome do amor Jesus estava disposto não só a contradizer a lei, os costumes, as pessoas ao seu redor. E acima de tudo estava disposto a contradizer a si próprio.
Quando Jesus perdoou a mulher adúltera ele contradisse a lei. Num sábado em que ele cura um homem com a mão mirrada ele contrariou o costume. Quando ele liberta a filha de uma mulher Siro-fenicia, ele se contradiz a si mesmo, pois foi ele quem disse que os pães era para os filhos e não para os cães, referindo aos gentios.
Não existe religião verdadeira que por sua vez não possua vínculos com o próximo. Tanto o sacerdote quanto o levita acreditaram que o serviço no templo em Jerusalém era mais importante que a vida de um moribundo à beira do caminho. Afinal de contas eles não poderiam correr o risco de uma possível contaminação cerimonial que os impossibilitariam de ministrar no templo durante uma semana. É interessante como essa mesma tendência ainda permeia nossas igrejas, em que privilegiamos programações ao invés de pessoas.

4. Temos uma noção muito errada de que só um cristão age com dignidade.Vv 31-35.

Na concepção de um judeu, somente os verdadeiros filhos de Abraão seriam capazes de agir com dignidade, ou seja, outro judeu. No entanto, na parábola de Jesus fica claro que para agir com dignidade é preciso mais do que tradição religiosa, faz-se necessário possuir a imago Dei – a imagem de Deus. Por essa razão é que: “existem freiras que cuidam de orfanatos, padres que se entregam para cuidar de leprosos; cientistas ainda lutam para alcançar terapias contra o câncer, vacinas contra o vírus do HIV. Também terapeutas ainda se dedicam aos doentes mentais, ainda existem pais adotando filhos abandonados; mulheres visitando indigentes em hospitais públicos”. A esses, Jesus dará o troféu da bondade.

“Quem é o meu próximo?” È a pergunta mais encurraladora nessa igreja e sociedade egoísta que estamos vivendo nessa época. E o que vamos fazer, eis a questão? Só que essa pergunta não se responde com palavras.

Gostaria de finalizar esta reflexão com um texto no mínimo marcante:

“Estava faminto, e você formou um clube humanitário para discutir minha fome. Obrigado.
Estava na prisão, você saiu sorrateiramente e orou pela minha libertação.
Estava nu, e na sua mente você debateu a moralidade de minha aparência.
Estava doente, e você se ajoelhou e agradeceu a Deus por sua saúde.
Estava solitário, e você me deixou só para orar por mim.
Você parece tão santo, tão perto de Deus, mas... ainda estou faminto, solitário e com frio.
Então, aonde foram suas orações? Que beneficio pode trazer a um homem o folhear de seu livro de orações quando o resto do mundo chora por sua ajuda?”.
Autor desconhecido

"Isso fica feliz em ser útil"
João Ferreira Leite Luz

2 comentários:

André Martins. disse...

No mínimo excelente!

Que o Senhor nosso Deus continue iluminando vc, para que possa continuar nos abençoando com essas mensagens edificantes.

Um forte abraço,e fique na paz!

João Ferreira disse...

Amigo,

Fico lisonjeado por tuas palavras.
Obrigado.

João