quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Jacó, 130 anos de peregrinações


O Gênesis em sermões expositivos


Texto: Gênesis, 47.1-12

O todo da vida, ou ainda, o quadro maior da vida é composto de peregrinações. O tempo de vida ou de existência é composto por pequenas frações do tempo a que chamamos de momento, esse pequeníssimo e indeterminado espaço do tempo quando somado, temos o que chamamos em linguagem metafórica de tempo de peregrinação. Uma vez que segundo o Novo Dicionário Aurélio peregrinar é:- “viajar ou andar por terras distantes”.
Então entendemos que na vida, ainda não chegamos, estamos sempre a caminho.
Enquanto não chegamos precisamos entender que a vida é cheia de pequenos momentos e precisamos viver um momento de cada vez, para não chegar ao fim da caminhada correndo o risco de não ter vivido o suficiente. Vejamos um trecho do poema instantes, atribuído a Jorge Luiz Borges (escritor argentino):

Se eu pudesse viver novamente minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido,
na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas,
nadaria mais rios, Iria mais a lugares aonde nunca fui
tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e produtivamente cada minuto da sua vida;
claro que tive apenas momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feito a vida,
Só de momentos, não percam o agora.

A grande pergunta então deve ser a seguinte:- A nossa peregrinação aqui na terra nesse tempo de vida tem sido marcada por quais valores?
O que diremos nós quando estiver findando o tempo de nossa peregrinação? Diremos que valeu a pena, e que se fosse possível viveríamos tudo outra vez? Ou chegaremos ao entardecer da vida com a sensação amarga de que nossa peregrinação não valeu a pena, pois ela foi quase que na sua totalidade marcada por amarguras, e na verdade não víamos a hora de partimos daqui para o “descanso” eterno?

Uma das coisas que me chamam a atenção nesse texto é que quando o Faraó pergunta sobre a idade de Jacó, ele responde sobre o seu tempo de vida aqui na terra, e ainda fornece pistas de como sua peregrinação foi marcada.
Acredito que a partir da resposta de Jacó, poderemos extrair algumas reflexões a respeito do nosso tempo de peregrinações.

Reflexões e especulações a respeito do tempo que se chama de peregrinações.

“...São cento e trinta anos da minha peregrinação.Foram poucos e maus (difíceis)...”. V.9.

1. Estamos a caminho, ainda não chegamos.

Devemos caminhar com a noção de que estamos aqui de passagem, de que a vida é efêmera, passageira e transitória, ou como disse Pedro o apóstolo, “... Amados, insisto em que, como estrangeiros e peregrinos no mundo, vocês se abstenham dos desejos carnais que guerreiam contra a alma...” (I Pe 2.11). Também se lê à mesma coisa na epístola aos Hebreus: “... Todos estes viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-no de longe e de longe o saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra...” (Hb 11.13).
Devemos então caminhar com o objetivo de “acumular tesouros no céu”, ou seja, tudo o que fazemos aqui de alguma maneira tem sua projeção no céu. (Cf. - com a parábola do Rico e do lázaro em Lucas 16).
Gosto de uma frase que ocorre no filme Gladiador, de Ridley Scott. Onde o protagonista Maximus, personagem de Russell Crowe, diz mais ou menos assim:

_ “Caso algum dos senhores se perceba cavalgando em uma serena campina no mais belo pôr- do- sol, não se assuste, você morreu e está no Elíseos.
_O que fazemos na vida ecoa na eternidade”.

Creio que o que fazemos aqui nesta vida gera desdobramentos por toda eternidade.

2. A caminhada só faz sentido quando a peregrinação não é solitária.

Acredito que felizes são aqueles que não optam por caminharem sozinhos. Penso que a vida só é bonita quando possuímos amigos de verdade, ou como bem expressou cantando Roberto Carlos e Simoní:- “na vida é tão bom ter amigos, amigos de fé, irmão camarada, assim como eu e você, amigos”.
Ou como cantou o trio- Toquinho, Sândy e Junior:- “pra gente ser feliz têm que cultivar as amizades, ser amigo de verdade”. E isso que quero para minha vida!
Nas palavras do grande sábio Salomão é bom ter amigos, pois quando caímos eles nos ajudam a levantar.
“È melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas”.
“Se uma cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se. Mas pobre do homem que cai e não tem quem o ajude a levantar-se!” (Ec 4.9-10).
Os amigos de verdade são para toda hora. (Pv 17.17).
Só os amigos de verdade sabem dizer coisas duras. (Pv 27.6 e 17)
Existem amigos mais achegados que um irmão. (Pv 27.10 e 18.24)

“O cristão é um peregrino que caminha em comunhão. O cristianismo é a trilha da intimidade com Deus e com o próximo”. Ed René Kivitz.

Coisa boa é ter um amigo para sentar e conversar sem se preocupar com a hora.

3. A caminhada só é bacana quando criamos vínculos familiares.

Bom na vida é saber viver de bem com a família, curtir a mulher e os filhos. Pois a maior parte da vida se desenvolve no meio familiar
Uma das artes mais difíceis na atualidade consiste em desfrutar de todas as potencialidades do casamento e da família, pois estamos sonhando sempre com a mulher perfeita, com o marido perfeito, com o filho perfeito. Estamos sempre buscando os grandes acontecimentos, os grandes eventos. E nos esquecemos de valorizar os pequenos momentos do cotidiano.
Precisamos aprender a nutrir os momentos simples da vida em família, como por exemplo, quando nos sentamos todos à mesa para as refeições. Talvez porque nunca tenha tido esse privilégio na infância. Hoje em minha casa esse momento parece mágico, me fascina poder ter meus filhos e minha mulher bem ali ao meu lado.
A vida não acontece nas grandes conquistas, e sim nas banalidades do dia- a- dia. Então necessitamos emprestar significado aos momentos triviais da vida.

Uma vez que nossa peregrinação é feita só de momentos, ou melhor, de vários, vários, vários momentos. Seria de bom siso começar-mos a valorizar o momento dentro do tempo.

One moment in the time - um momento no tempo
João Ferreira Leite Luz

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