quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Alguns conceitos impopulares


O Gênesis em sermões expositivos

Texto: Gênesis, 41

Os orientais e particularmente os judeus atribuíam grande valor aos sonhos. Daí pode-se entender porque Deus usou amplamente esse método para falar com a humanidade.
È interessante notar que em alguns sonhos Deus falava diretamente aquilo que queria mostrar. No entanto, outros eram enigmáticos, fazendo-se necessário quem os interpretassem.
É digno de nota que os sonhos eram concedidos em maior número àqueles que não tinham a vantagem de viver debaixo do pacto judaico.
Alguns exemplos:
Deus fala com Abimeleque em Gn 20.3-7, com Labão em Gn 31.24, com o copeiro e padeiro-mor de Faraó em Gn 40. Fala com o próprio Faraó em Gn 41; com Nabudonozor em Dn 2 e com a mulher de Pilatos em Mt 27.19.

Alguns conceitos para pensarmos juntos:

1. Difícil é abrir mão dos louros da glória humana, sempre queremos para nós.

José mediante a oportunidade de ser famoso e ter sucesso, transfere o mérito para Deus. Vv 15-16.

Quando Faraó atribui a José o poder de interpretar sonhos, ele não aceita. Dizendo que isto não estava em poder dele, mas vinha de Deus.
Diante disso a grande pergunta é: quem nós estamos querendo promover, Deus ou nós mesmos?
Será que meu desejo sincero é que Cristo cresça e eu diminua? Ou será que no meu íntimo não existe o desejo secreto de construir um nome para mim mesmo.
Não há nada que evidencie mais esse anseio secreto do coração do ser humano do que a busca de títulos e cargos dentro da igreja
A.W.Tozer tinha razão quando escreveu: “O que mais impede os avivamentos nos dias de hoje é que na verdade, na verdade, nós não queremos avivamento. Eu quero avivamento na minha igreja”.
Porque madre Teresa de Calcutá se tornou famosa? Porque ela nunca confundiu o sucesso da causa que defendia com a sua vida.
Ouçamos o conselho de um sacerdote católico: “O santo não ama a propaganda... Quanto mais em sintonia com Deus, mais discreto e humilde é” (Frei Jorge E.Hartmam).
Também devemos nos perguntar se estamos dispostos a servir a Deus na obscuridade, no anonimato e sem reconhecimento nenhum?
Vou transcrever aqui um poema de Ruth Harms Calkin, que é no mínimo intrigante e desafiador. Senão, vejamos:

Como Será?

Tu sabes, Senhor, como te sirvo
Com enorme fervor emocional
Quando estou debaixo de holofotes.
Sabes como falo de ti ardentemente
Na reunião das senhoras.
Sabes com que entusiasmo promovo
Uma reunião de confraternização.
Conhece meu sincero fervor
Em um grupo de estudo bíblico.
Mas como será que reagiria,
Se me apontasses uma bacia com água
E me pedisses para lavar os pés calosos
De uma velhinha enrugada, arqueada,
Todos os dias
De todos os meses;
Num lugar onde ninguém visse
E ninguém soubesse do fato?

Uma grande prova de espírito de servo é a disposição de viver no anonimato. Eu, e você estamos dispostos?

2. Afirmamos Jeová como único Deus, mas o negamos com atitudes.

José afirma diante de Faraó que Jeová é o único Deus verdadeiro. V16 e 32.

O fato de José ter confessado sua fé no seu Deus publicamente poderia ter-lhe custado à vida. Pois o fez na presença de um rei egípcio, o qual considerava a si mesmo um deus. Faraó era considerado como deus sol em forma física, mas que nessa situação foi ineficaz.
No versículo 16 , o termo Deus (ha elohim) no hebraico, tem o artigo definido que denota distinção. Fazendo nítida distinção com os deuses do Egito.
Vejamos em qual situação José esta afirmando a existência de um único Deus supremo, pois o Egito possuía um panteão de deuses e deusas diversificados.
Existia uma tríade mais destacada: Hórus, Osíris e Ísis. Seguindo de outros menores, mas de grande influência: Hápi o deus do rio Nilo. Heqt a deusa rã, Tot senhor da magia; Hator deusa vaca, Ápis o touro, Min deus da fertilidade e protetor das colheitas. Amon – Rá, o deus-sol que era o próprio Faraó.
Foi em meio a essa miscelânea de deuses que José afirmou: “... Deus (Jeová) dará resposta a Faraó...”.

Sei, contudo, que hoje virou moda dizer que é religioso. Confessar o nome de Deus publicamente é muito fácil e até dá status em um país com liberdade de expressão e liberdade religiosa. Então a dimensão de negar Deus se tornou mais sutil. Negamos o nome de Deus hoje com posturas, confessamos Deus com os lábios e o negamos com atitudes.

3. Acreditamos ser os prediletos de Deus por sermos religiosos. Infeliz engano.

Deus dá sonhos proféticos a um rei pagão, e pior, um rei que se considerava um deus. V 25.

Deus dá ao Faraó um sonho de grande importância, pois trataria do futuro não só do Egito, como também do mundo antigo.
A questão é polêmica: Deus pode usar pessoas não cristãs e até certo ponto pagãs?
A imago Dei – imagem de Deus no ser humano não foi totalmente destruída pelo pecado. Essa imagem de Deus no ser humano é que o habilita a fazer o bem.
Os filósofos mesmo não sendo cristãos nos legaram uma grande herança na arte de pensar e apontar direções sobre as grandes questões da vida.
Mohondas Gandhi (Mahatma – grande alma) apesar de ser um líder hindu, nos respondeu a pergunta: “em seus passos o que faria Jesus?”.
Infelizmente nosso conceito de ser útil nas mãos de Deus é muito pequeno. Acreditamos que apenas nós os religiosos é que somos usados por ele. Lastimável equívoco!

4. Confundimos espiritualidade com capacidade humana.

José foi colocado no governo do Egito não por apenas ter interpretado os sonhos, e sim, porque se mostrou capaz. Vv 37-38.

José possuía não apenas uma grande espiritualidade como também se revelou um grande estadista na administração do governo do Egito.

Vejamos o comentário:
“Às vezes, na vida cotidiana da igreja, os que possuem algum dom espiritual de profecia ou revelação não sabem separar as coisas espirituais das racionais.
Espiritualizam demasiadamente os fatos da vida religiosa e agem como se fossem anjos. José não perdeu os seus dons espirituais, e soube administrar a sua vida espiritual de modo a ser uma bênção nas responsabilidades materiais”.

Percebam que não foi o fato de José interpretar os sonhos (dom da interpretação), mas a capacidade de administrar (capacidade humana aprendida).
Portanto, não adianta possuir apenas uma grande espiritualidade, se não somos capazes para a realização da tarefa a nós incumbida.
Jesus contou uma parábola em que três homens receberam responsabilidades, cada um segundo a capacidade que aparentava ter. Infelizmente um daqueles homens não conseguiu realizar a tarefa. Cf. Mt 25.14-28.
Evidenciando assim que ele apenas possuía uma aparência de espiritualidade e capacidade, pois quando lhe é solicitado demonstrar os desdobramentos da sua espiritualidade ele falha.

Deus não está preocupado com a aparência de nossa espiritualidade, mas sim se esta espiritualidade vai gerar desdobramentos que nos torne capazes nos mais diversos desafios da vida.

Sonhar é preciso...
João Ferreira Leite Luz

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