quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Adoração e gratidão em meio à crise


O Gênesis em sermões expositivos


Texto: Gênesis, 47.13-31

É interessante que fazendo referência ao versículo 31, o escritor da epístola aos Hebreus no capítulo 11 e versículo 21, ele diz que: “Pela fé Jacó, à beira da morte, abençoou cada um dos filhos de José e adorou a Deus, apoiado na extremidade do seu bordão”.
Agora, a pergunta que fica é a seguinte: Quais as razões que Jacó tinha para adorar a Deus, visto que ele (Jacó) está velho e morrendo. Pior ele está morrendo longe da terra da promessa, está vivendo com sua família no meio de um paganismo extremado. Vivendo de favores, pois foi pela permissão do Faraó que eles estão habitando nessa terra, e para piorar seu filho José que é o governador, está enfrentando uma crise sem proporções, pois a seca ainda é rígida em toda a região, gerando grande fome entre o povo e José tem que lidar com tudo isso. E Jacó obviamente também é atingido pelas preocupações do filho.
O que poderíamos aprender sobre gratidão e adoração num contexto tão conturbado como esse?
Passemos a palavra ao texto:

Fazendo uma leitura do contexto a partir de Hebreus 11.21.

“...Adorou a Deus, apoiado na extremidade do seu bordão...”.

1. Jacó em primeiro lugar adorou por meio da fé, e não por resultados.

A primeira razão pela qual Jacó adorou, foi pela confiança que ele depositava no caráter do seu Deus.
Vejamos o que a bíblia fala a respeito:

“Todos estes viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-no de longe e de longe o saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra”.
“Os que assim falam mostram que estão buscando uma pátria”. “Se estivessem pensando naquela da onde saíram, teriam oportunidade de voltar”.
“Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade”.
Aos Hebreus 11.13,16.

Na verdade a pátria, a cidade que Jacó buscava não era Canaã, e sim a “cidade que tem alicerces, cujo arquiteto e edificador é Deus”.
Então nesse sentido Jacó não adorava a Deus pela promessa de um simples pedaço de terra, mas sim pela esperança de um dia estar face a face com seu Deus na pátria celestial.
Isso fica muito claro no texto em estudo, pelo fato de Jacó estar velho e morrendo no Egito, longe da sua Canaã. Nesta vida ele não voltaria mais a vê-la, apenas seus restos mortais é que voltariam para lá. E mesmo assim ele adora.

Gosto muito de um pensamento de Simone Weil:
“Não me incomodava em não possuir qualquer sucesso visível, o que mais me importunava era a idéia de estar excluída de um reino transcendental ao qual somente os grandes têm acesso e aonde habita a verdade”.

Que diferença da igreja moderna que sempre adora em busca de resultados, ou como dizem os pregadores: “Deus não nega nada aos adoradores”, ou “É só adorar que Deus abre as portas dos céus e nos abençoa”. Esses pregadores estão cometendo um erro gravíssimo pois quem se obriga a dar tudo, se adorado, é o diabo, e não Deus. “Tudo isso te darei, se prostrares e me adorares” Mt 4.9.
A semelhança de Jó, precisamos aprender a adorar a Deus por quem ele é, e não por aquilo que ele pode dar. Para não corrermos o risco de o diabo dizer: Por acaso é em vão que seus filhos te adoram, não tem porventura lhes enchido de bênçãos?
Precisamos aprender a adorar a Deus pela fé, “pois quem é capaz de exercitar a fé vê mais longe, voa mais alto, chega mais a diante”.

2. Jacó adora para demonstrar gratidão pelo que Deus havia lhe feito até aquele momento.

Jacó adora, para dizer: Senhor, mesmo em meio a tantas crises e tantas lutas, eu sou testemunha de suas muitas misericórdias. Obrigado por ter estado comigo.
Jacó estava expressando sua gratidão, porque Deus havia lhe feito uma promessa no capítulo 46.2,4. E havia cumprido. Vejamos por etapas quais promessas eram essas, pelas qual Jacó exprime tanta gratidão

a) “Não tenha medo de descer ao Egito, porque lá farei de você uma grande nação” 46.3
Jacó ainda em vida viu sua descendência se multiplicar muito 47.27

b) “Eu mesmo descerei ao Egito com você” 46.4a
Deus no Egito esteve com Jacó ainda por 17 anos 47.28

c) “Certamente o trarei de volta. E a mão de José fechará os seus olhos” 46. 4b
Jacó foi sepultado em Canaã, na caverna do campo de Macpela, pelos seus filhos, inclusive José 50.12-13. (José prometeu que faria isso 47.29,31).

Penso que a gratidão brota de um coração que tem contentamento. Não acredito nessa adoração mecânica que existe em nossas igrejas na atualidade. Em que para se adorar tem que haver um ambiente carregado de emoções ou de sentimentalismos. Acho ridículo quando o ministro de louvor ou o pregador incita o povo a adorar, ou fazer barulho, não sei bem ao certo.
A verdadeira adoração é espontânea, não é forçada, nasce de um coração que aprendeu estar satisfeito ou a ter contentamento.
A palavra contentamento do Latim contentu (contido, retido) sugere a idéia de conteúdo.
Nesse caso, satisfeito, é aquele que é capaz de usufruir, de reter o conteúdo da realidade na qual está inserido, ou seja, independente da situação, ele está satisfeito. Desse tipo coração é que vem a adoração legítima.

Vejamos o que o apóstolo Paulo disse a respeito de contentamento:

“De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos estejamos com isso satisfeitos” I Timóteo 6.6,8.
O grande mal da igreja moderna é que sucumbimos ao capitalismo, em que aprendemos a ter, e a sempre querer mais, e mais. E essa postura de nunca ter limites gera em nosso coração a insatisfação, que por sua vez leva a ingratidão, pois não reconhecemos o que conquistamos até aquele momento.
Ultimamente tenho aprendido a ter um postura em meu coração, a de entender que aquilo que eu conquistei até agora, já é bem mais do que na verdade eu mereço. Pois tudo o que tenho vem de Deus por suas misericórdias, onde não há mérito meu e sim dele.

Então como Jacó, só me resta adorar em gratidão com um coração sincero e satisfeito.

Contentu cordis - coração satisfeito
João Ferreira Leite Luz