domingo, 23 de novembro de 2008

Sonhos que inquietam

(Categoria – Minha história)

Subíamos pela Rua Vicente Fernandes Figueiredo. Estava eu, meu pai e minhas duas irmãs: Regina e Davina. Essa é a rua da casa da nossa mãe. Já faz seis meses que meu pai morreu e, na noite passada “ele veio me ver” novamente, ou melhor, “ele veio” me visitar no inconsciente. Outra vez sonhei com ele.
Estávamos subindo na direção do centro da cidade, caminhávamos lentamente, pois ele um velhinho de oitenta e cinco anos não andava depressa. Como na vida real nos falávamos pouco, mas o fato de apenas estar na presença dele já era suficiente. De repente ele disse que não iria mais adiante, pensei que estava cansado e perguntei se queria ir de ônibus. Para minha surpresa ele disse que não iria mais adiante conosco, ou seja, estava nos deixando. Acordei às quatro da manhã com dor de cabeça e com esse sonho me inquietando a alma. Passei a considerar se no momento em que ele nos deixava representava quando nos deixou por ocasião da separação dele com minha mãe, ou se representava sua partida através da morte.
O sonho parecia real, caminhávamos todos, e notei que a mão dele estava suja de terra, talvez por ter assimilado no sonho a profissão que ele exerceu durante a velhice, que era jardineiro, ou melhor, alguém que lidava com a terra.
No momento em que ele disse que não iria mais adiante, e que nos abandonaria, segurei forte sua mão suja, senti as mais diversas sensações: alegria, tristeza, pavor, esperança, foi um surto, um misto de emoções que jamais senti acordado. Acordei por fim, com a imagem nítida do momento em que segurava forte a mão suja de terra.
Sei que se algum psicólogo ler este desabafo, aliás, nem precisa ser psicólogo para me dizer que tenho conflitos interiores mal resolvidos, lembranças de uma infância sem a presença paterna que me deixaram feridas na alma, sem dúvida me dirá que preciso de tratamento psicológico. Contudo, prefiro continuar caminhando pela rua em presença do meu velho pai com suas mãos sujas de terra e minhas duas irmãs. Se só é possível estar com ele assim, que assim seja.
Hoje, caminhei o dia todo em pensamento por caminhos que percorrem dentro da alma por àquela rua, lembrei-me de muitas coisas de quando era criança e tinha meu pai por perto. No entanto, tenho que voltar a realidade, voltar a ser gente grande, a lidar com problemas de gente grande. Eu mesmo tenho que voltar a realidade de ser pai, e tentar ser um pai melhor.
Contra todos os pressupostos cristãos acredito que existem feridas que não precisam ser curadas, aliás, sempre que puder voltarei a subir àquela antiga rua em companhia do meu pai, nem que seja em sonho ou em pensamento.

Absconditum mentis – o escondido da mente
João Ferreira leite luz

Nenhum comentário: