domingo, 2 de novembro de 2008

Religião: máscara e essência

(Categoria - Reflexões)

A grande pergunta repousa sobre o que é ser autenticamente um religioso no “mundo” evangélico.
A religiosidade patética de um grande número de segmentos evangélicos da modernidade tem se resumido em estar confinados em redutos cristãos aprendendo métodos de reivindicar direitos, decretar vitórias, bater o pé e amarar demônios, exigir bênçãos para ficar próspero etc. A ênfase não é mais a reflexão bíblica séria, e sim as emoções, o que sentem no culto, às experiências místicas, os arrepios etc.
Estamos freqüentando a templos suntuosos, apinhado de gente querendo ser bem sucedida. Nesta frenética busca de bens materiais as igrejas crescem numericamente e, ironicamente pregam fraternidade, pois enquanto alguns vivem nababescamente a grande maioria é pobre e por de trás dos bastidores ainda tem gente passando fome. Essa religiosidade não passa de uma máscara, pessoas vazias, periféricas no relacionamento com Deus, mas que se sentem seduzidas por suas benesses. Vive um relacionamento, mas de troca, jejuam para conquistar benefícios, oram, mas porque querem galgar sucesso. A exemplo, como no famoso movimento de igreja em células no modelo dos doze (G.12) aonde existe a chamada “oferta com propósitos” em que o ofertante leva sua contribuição determinando a benção, a cura, ou a salvação de um ente querido, através de sua oferta. (Indulgência moderna?).
Isso beira o absurdo diante da proposta protestante do século XVI, em que Martinho Lutero em suas noventa e cinco teses denuncia os abusos da igreja Romana. Em sua tese de número 54, ele afirma:
“Ofende-se a palavra de Deus quando no mesmo sermão se da igual ou mais tempo as indulgências do que a própria palavra.”
Nem parece que ele tenha escrito no século XVI, pois continua atualíssimo, visto que nos cultos contemporâneos se gasta cerca de 40 minutos ministrando (coagindo?) sobre ofertas. Esse abuso de cobranças de tributos, prometendo prosperidade, saúde e sucesso, não seria uma espécie de indulgência moderna? Será que não estamos precisando de uma nova reforma? Acredito que a máxima da reforma protestante do século XVI, deveria ser a nossa também: “Ecclesia reformata et semper reformanda”.
Essa busca ilimitada de bens temporais não representa o leito principal do cristianismo apostólico, mas são subprodutos da busca do essencial, Deus e seu reino (Mt 6.33). Inverteram-se os valores do reino, mudou-se de foco, olha-se para Deus como meio para realizações de meros projetos humanos. Estamos pregando um evangelho antropocêntrico em que Deus deixa de ser o centro, para dar esse lugar ao ser humano.
Conversando com uma pessoa não evangélica, ela me disse que se fosse para ser crente nessas igrejas contaminadas pelos efeitos da pós-modernidade, ou seja, o evangelho tornou-se mais um bem de consumo a ser comercializado, ela preferia não ser religiosa. No que lhe disse: qual é o conceito que se tem da religião. O que é ser religioso. Fui sincero em afirmar que via nela uma pessoa cristã, e mais, que sua vida era abundante em valores e conteúdos do reino de Deus, que não vejo em muitos cristãos (pseudo?) com muitos anos de igreja.
A pergunta não quer se calar. O que é ser religioso? Acredito que nesse momento crítico que a igreja atravessa essa pergunta não deve ser silenciada, e mais, ela deve ser respondida não simplesmente através de palavras, mas principalmente através de posturas, de atitudes, de obras, enfim através da vida.
Muitos diriam que ser religioso é ir à igreja periodicamente; obedecer a regras que o pastor dite; dar dízimos; não prejudicar ninguém etc. De fato isso demonstra alguém religiosamente bem trabalhado, mas não responde a pergunta.
A palavra latina religare (religião) quer dizer religar, atar etc. A aplicação desta palavra quer dizer que religião é religar ou reconstruir o relacionamento que outrora foi rompido com Deus. Essa reconstrução só é possível por meio do sacrifício que Jesus Cristo fez na cruz. Então religião em sua essência é uma vida relacional com Deus através de Cristo, e ainda, é um relacionamento onde Deus como Pai procura filhos e filhas com os quais ele possa construir uma grande família. E nós como filhos possam à medida que caminhamos absorver o caráter de Cristo.
Então a pergunta o que é ser religioso tem a sua resposta quando afirmamos que ser religioso é uma busca essencialmente do próprio Deus, e não a mera busca descomedida por seus presentes.

Que Deus nos ajude!
Sola Scriptura.
João Ferreira Leite luz

Um comentário:

Roni disse...

Muito bom o texto amado! Que possamos juntos ser sal e luz nesse mundo corrompido e principalmente dentro disso que teimam em chamar de "igreja" mas que não passa de um clubinho de crentes.

Bom saber que tem pessoas de visão como vc que estão dispostos a ir contra a correnteza e proclamar o verdadeiro evangelho do Senhor Jesus.

Abraço e paz

Solus Christus

Roni Coelho

(O Apologeta)