domingo, 23 de novembro de 2008

A manjedoura, o madeiro e o sepulcro vazio

(Categoria – Estudos)

Pensar na obra que Jesus realizou, é pensar em uma obra completa. Jesus veio ao mundo com um objetivo bem definido; nasceu, viveu e morreu para que a humanidade tivesse livre acesso ao coração de Deus como Pai. Gostaria de nesta simples reflexão, falar um pouco sobre essa obra, dividindo-a na sua temática de maneira figurada. A manjedoura - encarnação do verbo, o madeiro - morte na cruz e o sepulcro vazio - a ressurreição. Que Deus me ajude! Vamos ao texto:

A MANJEDOURA – encarnação do verbo. Evangelho de Lucas 2.7.
A manjedoura, lugar em que os animais se alimentam. Tornou-se recipiente para o recém nascido Rei da Glória, como sinal de simplicidade e humildade.

“A majestade assumiu a humildade.
A força assumiu a fraqueza.
A eternidade assumiu a mortalidade.
A natureza inviolável uniu-se a natureza que pode sofrer.
Invisível na sua própria natureza tornou-se visível na nossa.
Ele que é incompreensível tornou-se compreendido.
Anterior aos tempos começou a existir no tempo.
Deus impassível não horrorizou de vir a ser carne passível.
Imortal não recusou as leis da morte.
Senhor do universo revestiu-se da forma de servo”.
(Tomo de Leão)

Através da manjedoura:
O Deus Filho passa a possuir a natureza teantrópica, natureza divino-humana.
Nasce o Emanuel – Deus conosco Mt 1.23.
Vem ao mundo o pão da vida Jo 6.35.
Entra nesta terra a luz do mundo Jo 8.12.
Vem ao mundo a porta da salvação Jo 10.9.
Entra nessa vida o bom pastor Jo 10. 11
Nasce aquele que é a ressurreição e a vida Jo 11.25

Na manjedoura:
Deus é agora é visível e palpável;

“E o verbo se fez carne, habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e verdade” Jo 1.14.

“... O qual é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação...” Cl 1.15.

“... Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade...” Cl 2.9.

“... O qual sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa...”
Hb 1.3.

A manjedoura é a prova de que Deus não se contentaria de nos contemplar a distância, veio ser um de nós.

O MADEIRO – o ato crucial da paixão. Evangelho de João 19.23-3
Hoje, nós os cristãos vemos na cruz um símbolo de triunfo, de vitória. No entanto, quando Cristo foi crucificado significava derrota e vergonha. A crucificação entre os romanos era reservada primeiramente aos escravos e para aqueles que haviam cometido crime hediondo (sórdido, repulsivo, imundo etc.), ou seja, a cruz era pena infligida para a pior espécie de malfeitores, ladrões e marginais. Contudo os cidadãos romanos estavam isentos dessa pena por leis especiais.

Jesus na cruz foi exposto à vergonha pública.
Morrer na cruz era ser exposto a pior vergonha possível para um judeu, que inclusive na cultura judaica significava maldição, como se lê em Gálatas 3.13: “Cristo nos redimiu da maldição da lei quando se tornou maldição em nosso lugar, pois está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro”, e Paulo, apóstolo está fazendo referência a Deuteronômio 21.23. Paulo ainda diz que a cruz era escândalo para os judeus: “Nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os gentios” 1 Coríntios 1.23.

Jesus na crucificação foi desprezado pelos homens.
Exatamente como profetizou Isaías em 700-680 antes do nascimento do Cristo, como lemos em Isaías 53.3 “... foi desprezado e rejeitado pelos homens...”.
Os soldados romanos lhe vestiram de púrpura, colocaram uma coroa de espinhos e lhe deram um cetro de cana, para significar que tipo de rei ele era. Rei momo, rei palhaço, bobo de corte, com coroa de espinhos, o cetro de cana era para representar a autoridade que ele possuía: autoridade de coisa nenhuma.
Zombaram dele se prostrando e dizendo: “Salve rei dos judeus”. Cuspiram-lhe no rosto, bateram em sua cabeça com um caniço. Muitos dos povos diziam-lhe: “Se tu és o filho de Deus desça daí; salvou os outros, salve a si mesmo; Onde está aquele que destrói o templo e o reedifica em três dias?”.

Jesus na cruz foi esquecido por seus amigos.
Pedro negou a Jesus verbalmente, mas todos fugiram. Na hora mais difícil Jesus estava só, nenhum amigo, nenhum discípulo, nenhum daqueles que ele havia curado ou saciado a fome. Pelo contrário, aqueles a quem Jesus abençoou foram os mesmos que gritaram, crucifica-o. Cumprindo-se assim o que disse o profeta Isaías, “... como alguém de quem os homens escondem o rosto...”.

A morte de cruz.
A morte de cruz exigia um processo lento e doloroso, pois se iniciava no açoitamento do candidato a cruz.
No açoitamento prendia-se o condenado a um poste, e, então começava o flagelamento com um chicote que em latim é chamado de flagellum e em grego é azorrague, uma espécie de açoite com um cabo, em que é presa tiras de couro com material cortante nas extremidades. Para que, quando o algoz batesse nas costas do condenado, abrissem machucados bem profundos para acelerar a morte na cruz. Daí Isaías 53.10, dizer que Jesus foi moído, esmagado. É digno de ser dito que muitos morriam na hora do açoitamento sem chegarem à cruz devido à ferocidade violenta da fustigação.

O trajeto da cruz, nos ombros de Jesus.
Depois do açoitamento vinha à via dolorosa (via crucis), em que o pretendente a cruz com as costas literalmente dilaceradas, tinha que carregar o peso da própria cruz até o lugar da crucificação.

A crucificação.
É impossível imaginar a dor dos cravos sendo pregados nas mãos e nos pés de Jesus, é insuportável pensar no baque de quando a cruz é jogada dentro do buraco pré-cavado.
É inimaginável a dor das câimbras, por ficar horas pendurado naquela mesma posição, sem ter como reclinar a cabeça. Pois a cruz de Jesus era do tipo cruz latina, em que a parte superior passa acima da cabeça, e, foi exatamente nessa extremidade da cruz que Pilatos mandou colocar por escrito a condenação de Jesus: IESUS NAZARENUS REX IUDAEUS.

Jesus triunfou na cruz.
Não foi a cruz que matou Jesus. Foi Jesus quem deu sua vida por nós, como se segue nas passagens: “Por isso é que meu Pai me ama, porque eu dou a minha vida para retomá-la. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou por minha espontânea vontade. Tenho autoridade para dá-la e para retomá-la. Esta ordem recebi de me Pai”. Evangelho de João 10.17-18.
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos”. Evangelho de João 15.13.
Normalmente a cruz levava 3 a 4 dias para matar alguém, no caso de Jesus ele morreu no mesmo dia. Pois foi ele que se entregou pela humanidade, como ele próprio disse: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”.
Jesus na cruz por nós foi até o final. Suas palavras foram consumatum est – está consumado, está pago; está terminado. A missão pela qual Jesus nasceu estava acabada; está feito.
Jesus foi até as últimas conseqüências, para que no momento certo ele entregasse sua vida por nós.
Conta-se uma história em que um homem conduzindo uma carroça foi até uma venda comprar alguns alimentos. Quando saía do estabelecimento viu que os cavalos se assustaram e saíram em disparada, entretanto, o homem conseguiu agarrar-se em uma corda da lateral da carroça. Aquele homem foi arrastado por vários quarteirões até que os cavalos parassem. Quando foram lhe prestar socorro já estava quase morto, mas deu tempo de perguntarem: - Por que o senhor não saltou a corda, é apenas uma carroça? Num último esforço o homem apontou para dentro de um cesto no interior da carroça em que se encontrava seu filho de poucos meses.
Jesus por nós segurou firme até o final, porque dentro da “carroça” ele me viu, viu você, viu toda humanidade.

O SEPULCRO VAZIO – a ressurreição. Evangelho de Lucas 24.1-6.
O que diferencia Jesus dos demais líderes é que ele ressuscitou. Aliás, se Jesus não tivesse ressuscitado o cristianismo seria uma fraude. Jesus seria um embusteiro, ou nas palavras de Paulo apóstolo: “Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou; e, se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação , como também é inútil a fé que vocês têm” 1 Co 15.13-14.
A grande força do cristianismo não deveria ser que Jesus cura, opera milagres ou prospera. A mensagem mais alvissareira do evangelho é que Jesus ressuscitou, e que está vivo e bem presente ao nosso lado .
É impressionante como a convicção de que Jesus havia ressuscitado mudou radicalmente a vida dos seus seguidores do primeiro século.

“A ressurreição de Jesus foi a fé que transformou o coração partido dos seguidores de um rabino crucificado, em testemunhas e mártires da primeira igreja... Eles podiam ser presos e açoitados, mas ninguém conseguia fazê-los mudar a convicção de que – no terceiro dia, ele ressuscitou”.
Michael Green

Precisamos reaprender a fazer teologia a partir da obra da redenção por completa, e não ficarmos dividindo em eventos distintos para dar base a nossa afirmação doutrinária, pois a obra da redenção consiste em que Jesus nasceu, viveu, morreu e ressuscitou por nós.

Que Deus nos ajude!
Ad futuram memoriam – para lembrança futura
João Ferreira Leite Luz

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