quinta-feira, 7 de abril de 2016

Olhos de infância triste


(confissões)

A reação foi inevitavelmente tempestuosa, de seus olhos pequenos e tristes destilavam o amargo guardado já havia muito tempo. Tornara-se o monstro que sempre evitou ser, embora soubesse de sua existência dentro de si.
A mesa em que se apoia para anotar essas parcas palavras traz consigo parte de sua história primeira, ou de sua primeira infância . Infância em que já se apontava para a sina de seus olhos tristes de mira perdida no nada, vaga no horizonte e às vezes mirando o chão.
Mesa rústica; a madeira era peroba rosa, restos de sua antiga casa, casa demolida, casa da infância. Ele próprio construiu a mesa. Agora apoiado sobre ela escreve versos simples e tristes e melancólicos. 
Na tal mesa há detalhes que lhe faz varrer os porões empoeirados da memória. Lá ele encontra lembranças da infância perdida.
No pé da mesa não quis retirar os pregos com os quais se afixavam as dobradiças em que funcionou um dia uma porta. No tampo em que está apoiado enquanto escreve esse lamento misturado com ode à vida, ainda há fragmentos da tinta usada na pintura da casa simples de madeira já surrada pelo vento e pela chuva e pelo sol.
Há ainda na mesa uma marca, um sulco deixado pelo deslizar constante da tramela.
Esses detalhes lhe aguçam os sentidos e todas as vezes que está em sua mesa sente vontade de voltar nem que por um instante, nem que por um momento fugidio a sua infância triste.