quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ex-dependente de igreja

João Ferreira leite Luz

(Categoria - Reflexões)

Já me decepcionei com quase tudo e quase todos. Já desisti de um cristianismo inusitado e triunfalista, cheio de arroubos bombásticos. Já me decepcionei, inclusive comigo mesmo.
Sei que devido as minhas muitas desilusões e inquietações venho ultimamente escrevendo alguns textos recheados de um realismo que beira o pessimismo.
Entretanto, ao escrever críticas contra um movimento que está adoecido não busco ser popular. Escrevo porque adoro dar forma ao pensamento, aliás, com os textos que venho rabiscando sei que não teria a mínima condição de alcançar a popularidade, pois são sofríveis do ponto de vista literário, o meu português chega a ser risível aos gramáticos, minha redação é paupérrima e para ajudar eu nunca escrevo aquilo que é popular e agrade as pessoas. A impressão que dá é que só ando na contramão, na sintonia inversa. Só não cesso de escrever porque as inquietações dos meus pensamentos não me deixam em paz, e, também acredito que estas simples reflexões podem libertar alguns da canga asfixiante da religiosidade dos dias atuais. Ademais, sinto-me feliz ao permitir que minha pena extravase ideias, e percebo que Deus tem prazer em minha felicidade.
Divorciei-me desse cristianismo como ele se encontra na nossa contemporaneidade. Um cristianismo que só se preocupa com questiúnculas e querelas, discussões irrelevantes que não levam a nada. Uma igreja que se preocupa: se pode ou não beber vinho, se suas mulheres devem ou não cortar as pontas dos cabelos, uma igreja que se martiriza discutindo qual é o jeito mais correto de batizar; por imersão ou aspersão. Uma igreja que prega pureza, mas que por traz dos bastidores existe muita, muita sujeira. Prega-se prosperidade, entretanto, vivemos a igreja mais pobre (no pior sentido da palavra pobreza). Uma igreja que vive a “coar mosquitos e engolir camelos”, mas que se esquece de responder as questões mais essências ligadas à alma do se humano.
Não suporto a comercialização dos benefícios da fé, através de uma péssima hermenêutica feita a partir do Antigo Testamento. Somos uma igreja neo-testamentária, mas que quando quer validar suas grosseiras teologias de prosperidade e sucesso, recorre aos textos da antiga aliança. O Antigo Testamento tem necessariamente que ter o Novo Testamento como medida de aferição, para autenticar seus ensinos. (com isso não estou diminuindo o valor do Antigo Testamento, já que sou sabedor de sua grande importância).
Tremo de indignação diante das diferenças sociais, e fico completamente enfezado com o comportamento simplista da igreja ao fugir da sua parcela de culpa, e culpar os “demônios da miséria”, me desculpem, mas miséria é a lógica desse pessoal que vive se escondendo atrás de entidades espirituais.
Contudo, essas minhas muitas decepções não foram o suficiente para me azedarem a vida, não me amargaram a alma. Ao contrário, continuo cada vez mais apaixonado por Cristo e por seus seguidores (independente da religião, porque Cristo tem muitos seguidores fora dos nossos quintais denominacionais). Ainda me emociono diante de uma grande pregação, minha mente ainda é desafiada por mestres do púlpito que saibam abrir a bíblia e alimentar minha alma.
Mesmo que eu continue me desiludindo, ainda sim continuarei acreditando no Cristianismo, com C maiúsculo, pois o rabi de Nazaré após mais de vinte séculos ainda me inspira, me intriga e me desafia com a sua graciosidade para com a humanidade.
Andam me rotulando de desviado e me acusam dizendo que mudei minhas convicções. Não, não me desviei, e também não mudei minhas convicções. Arrumei coragem, já que sempre acreditei nisso, agora estou disposto a viver em coerência com minhas convicções.

Que Deus me ajude!
Semen est verbum Dei – a semente é a palavra de Deus
                                                                        
                                                                                


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