segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Eles não estavam lá...

João Ferreira Leite Luz

(contos)

“Da primeira vez em que me assassinaram perdi um jeito de sorrir que eu tinha. Depois, de cada vez que me mataram, foram levando qualquer coisa minha...” (Mario Quintana)


Ludogero, apesar de possuir um nome meio... , digo, muito esquisito. Também era homem de poucas palavras, quieto por natureza – casmurro, no mesmo sentido de Dom Casmurro em Machado de Assis: “homem calado e metido consigo”. Entretanto, era homem regido por valores íntegros.
Não obstante ser tosco e semi-analfabeto, era presenteado por uma inteligência intuitiva sem igual, que somado a sua disciplina e autodidatismo lhe proporcionou amplo conhecimento.
Dona Leodegária, a distinta esposa de Ludogero, que tinha o nome tão, ou mais esdrúxulo que do seu dote. Esta por sua vez era “flor de distinção e nobreza na heráldica da cidade”.
Mulher fértil. Pariu cinco filhos, trazidos ao mundo à moda antiga pelo parto normal por mão de hábeis parteiras. Para felicidade e honra de seu marido quase sempre calado.
Seus filhos, duas moças: Ludovina – nome dado em homenagem ao pai, e Breginata em homenagem a avó. Como todo homem que se preza Ludogero teve três filhos varões: Freudiano – provavelmente em homenagem ao Freud o tal psicanalista grande figura do século passado. Depois, o Eutico e por fim o João que naturalmente era o único que possuía um nome comum. E, segundo pesquisa era comum mesmo, já que João é o terceiro nome mais usado no mundo, só perdendo para Maria e José, nessa ordem.
Ludogero procurou orientar sua família por caminhos revestidos de dignidade e honra e honestidade e cavalheirismo ao semelhante. Já que acreditava nesses valores, não os ensinou com palavras, procurou vivê-los. Católico por religião, legitimo em suas crenças e ações.
Deste modo, jamais em toda sua breve vida deixou de estender a mão aos que precisou. Andou lado a lado com dependentes químicos e os fortaleceu no momento em que a sociedade os considerou vagabundos, entulho, rebarbas e aterro do fosso da escória.
Não tinha grandes recursos, todavia, ajudou aos pobres. Não acreditava no programa governamental “fome zero”, mais sabia que deveria cumprir com sua parte e ofertar nem que fosse um prato de comida aos desvalidos, excluídos e marginalizados pela máquina capitalista da qual ele mesmo ajudava a movimentar as engrenagens.
Procurou viver uma vida simples e útil, sem, contudo, pedir algo em troca, acreditava de verdade que “melhor coisa é dar, do que receber”. Quando precisavam dele, ele sempre estava lá.
Um dia, entretanto, Dona Leodegária adoeceu, metástase em toda região gástrica. O médico disse que era inoperável, estava além da medicina.
Ludogero se viu viúvo e mais casmurro do que de costume. E como o destino prega peças que nunca esperamos, o pior aconteceu. Os cinco filhos de Ludogero e Leodegária quando vinham da capital paulista para o féretro da mãe. Sofreram um grave acidente por “engavetamento” na rodovia que já foi considerada o “corredor da morte”, a rodovia que leva o nome do bandeirante Antônio Raposo Tavares. Não resistiram e todos vieram a óbito.
Ludogero, agora casmurro seis vezes mais e tristemente só. Já não conseguia mais se concentrar no trabalho, perdeu o emprego. E quando por fim Ludogero precisou de seus amigos a quem estendeu a mão. Eles não estavam lá.
Alguns dizem que Ludogero morreu de tanta tristeza, outros dizem que apenas sumiu. Não se sabe ao certo.
Se você souber do paradeiro de Ludogero da Silva brasileiro, por favor, o ajude.

E,
Que Deus ajude a todos nós!

Nota: Nenhum nome por mais esquisito, não foram inventados, portanto são nomes  reais, apenas incomum. 

Nenhum comentário: