domingo, 21 de junho de 2009

O estranho

Categoria – confissões

Estávamos a caminho, contudo, de repente surpreendeu-me a ferocidade dos sentimentos que permeava minha alma. Percebi então a fugacidade de minha existência.
Compreendi que caminhava todo tempo com um estranho, triste percepção, pois os dois que caminhavam era eu, conheci o outro eu, assumi meu lado estranho.
Utopicamente nutrimos a noção de integridade plena, somos todos dois, muitas vezes três ou até mais vivendo dentro de nós. Acredito na assertiva de Dietrich Bonhoeffer: “Quem sou eu? Este ou aquele? Sou eu um hoje, e outro, amanhã? Sou ambos eu ao mesmo tempo?”.
Luto para vencer a dualidade do meu próprio ser, só que nem sempre obtenho sucesso. Assim caminho, procurando ser o melhor dos que existe em mim. Que Deus me ajude!

Kyrie eleison – Senhor, tende piedade
João Ferreira Leite Luz

2 comentários:

Click disse...

Creio que até agora tenha sido este o texto que mais me tocou por aqui. Sim, pela profundade do drama e pela clareza da trama, o que traz à tona essa questão que, ao menos para mim, é de maior importância e que diz o ser humano não como uma essência encerrada, adaptável, suscetível apenas de mudanças conforme forças e formas exteriores, como se a nossa condição de estarmos vivos num tempo e num espaço determinasse a nossa existência, mas como um duplo, um triplo, o plural de si mesmo, como um ser que, por comportar em si tantas possibilidades, acaba influindo (como influi) na realidade daquilo que nos é dado. Uma pena que vivamos no tempo de uma cultura demente e fantasmagórica onde essa riqueza se transforma em cinismo e a potencialidade existencial e manifestativa do ser humano se converta em ideologias estéreis. Mas bom, muito bom haver os que atentam a esse nosso desdobramento de uma forma mais sensível, estes que atentam à luta que se trava por dentro do nosso espírito, nosso corpo e pensamento vivo. Estes que, como você nesse texto, não limita o homem a uma categoria dissimulada e escondida por trás de uma cultura esquizofrênica e mórbida. Estes que batem no ombro e dizem: "Mas você está vivo, ora essa!"

Belíssimo!

João Ferreira disse...

Amigo, Click.

Grato sou por tanta generosidade tua.

João