segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Natal e Darfur

(Categoria – Reflexões)

Minhas muitas inquietações nascem pelo fato de acreditar que o cristianismo contemporâneo está preocupado com as questões erradas, ou pelo menos com questões de pouca importância. Estamos lutando por coisas supérfluas.
A guerra estúpida em Darfur é uma ferida aberta no meio da humanidade. E nós os seres humanos e principalmente àqueles que se advogam cristãos é que são os responsáveis para que haja à cura.
O sofrimento da humanidade não é responsabilidade de Deus, e sim nossa. Pois nós é que somos os braços e as mãos de Deus.
Jesus quando veio ao mundo, veio como homem – “... e o verbo se fez carne e habitou entre nós...”. Ele defendeu não a sua divindade, mas sim o ser humano. Defendeu a santidade e dignidade da vida humana acima de todas as coisas. Jesus se envolveu essencialmente com questões humanitárias.
A matéria de capa da revista Veja de dezembro de 2008 nos desafia com a pergunta: “Que Deus é este?”. A pergunta mais encurraladora é se existe Deus porque existe sofrimento?
Não é Deus quem gera o sofrimento, muito menos quem o aprova. Ele também não deu à costa para a humanidade. São as nossas escolhas que provocam toda essa injustiça, horror e desigualdade. A pergunta deve ser refeita de: Se existe Deus porque existe sofrimento? Para: Onde está a humanidade quando há sofrimento? O que os cristãos estão fazendo para amenizar tanta dor nesse natal?
A pergunta mais dolorosa é o que Jesus tem a ver com o cristianismo atual? Ou, onde podemos ver traços de Jesus nessa religião institucionalizada e sem vida que chamamos de cristianismo?
Gostaria de poder ver Jesus nesses cultos em que o líder desafia os fiéis a darem a maior contribuição financeira possível. Igrejas onde não se aceita ofertas abaixo de cinqüenta reais. Ter nota de um real na carteira é sinônimo de maldição, de “espírito de pobreza”. Não consigo ver Jesus no meio dessa prática extorsiva, em que os lideres arrancam dinheiro das pessoas com pretextos de promessas de bênçãos mirabolantes. Também não inocento algumas pessoas que estão fascinadas pela idéia de prosperidade fácil e vivem em busca dessas campanhas em que podem vir a conquistar dinheiro com o mínimo de trabalho possível. Uma espécie de loteria celestial, em que compramos o bilhete através de dízimos e ofertas e depois ficamos na fila esperando o sorteio da bênção. Enquanto isso nos campos de refugiados em Darfur as mulheres são estupradas, homens são assassinados, crianças morrem de fome. Contudo, ainda sim podemos ver Deus através de grupos humanitários que se depõem para ser a mão de Deus em um inferno que nós criamos.
Não imagino Jesus no meio dessa corrida “imbecializante” por títulos, cargos e posições no meio religioso. Imagina, Jesus abriu mão de sua deidade, e nós ficamos nos digladiando para saber quem é o mais santo, o mais ungido, o mais sábio ou quem realiza o maior número de milagres. Gostaria de ver os televangelistas que se intitulam milagreiros ao invés de fazerem viagens para a Terra Santa em Israel, irem para o Sudão no campo de refugiados em Darfur e lá fazerem milagres, pois é lá que precisamos ser “Sal da terra e Luz do mundo”, e não dentro de nossas igrejas confortáveis.

Que Deus tenha piedade de nós!
Credula res amor – o amor tudo crê
João Ferreira Leite Luz

2 comentários:

Doroni Hilgenberg disse...

João,
Justamente, é assim que eu penso.
Todos os males que infestam a humanidade é obra do homem que se afasta de Deus e não tem consc iencia de seus atos nefastos.
Faz tempo que eu li o livro
"O Monsenhor" nem lembro o nome do autor, que contava toda a riqueza do capitólio e como faziam para consegui-la, eu me decepcionei com a igreja, com papas e com toda a curia Romana.
Toda aquela riqueza e deslumbramento até dói na alma da gente frente a tanta pobreza generalizada nos quatro cantos do mundo. E agora surge a Igreja Universal e seus pastores, extorquindo o povo e nadando em dinheiro. Uma afronta aos mandamentos divinos.
bjs

João Ferreira disse...

Sim, querida amiga.

Também me decepcionei com a igreja cristã (católica e evangélica, pois não faço distinção entre os cristãos).
No entanto, minha decepção é em relação a igreja enquanto instituição desprovida de vida, mas continuo fascinado pela "igreja-pessoas", pois o Reino de Deus reside em pessoas.
Continuo apaixonado por Jesus e sua obra, e, não cesso de pregar seu evangelho gratuito.

do seu servo,

João