domingo, 2 de novembro de 2008

Duplamente órfão

(Categoria - Minha história)

Domingo dia 11 de maio de 2008, eu esperava dormir um pouco até mais tarde, lá pelas 7 horas da manhã a campainha tocou e eu relutei por atender, achei um insulto uma pessoa tocar a campainha da casa de alguém às 7 da manhã de um domingo frio de outono. No entanto como a pessoa insistiu, resolvi levantar e atender. Para minha total surpresa era minha irmã mais velha que estava no portão com a notícia do falecimento do meu pai. Neste dia eu estava me tornando duplamente órfão. Minha primeira orfandade foi quando meu pai se separou da minha mãe. Então passei a viver sem a presença daquele que eu julgava o melhor pai do mundo, todavia, cresci, e agora estou me tornando órfão pela segunda vez.
Neste mesmo dia viajamos para Marília, pois o sepultamento seria lá. Quando chegamos ao velório, e vi meu pai ali deitado naquele caixão. As poucas lembranças da minha infância junto com ele vieram à tona e não resisti, tentei dar um de durão, mas chorei, feito criança aos 31 anos de idade.
Velório dos outros já é difícil, imagina estar em uma sala fúnebre com seu pai morto dentro de um caixão, é horrível. Horrível tentar disfarçar a ausência que ele provocou a vida inteira, e agora ele se foi para o resto da vida, e a gente tentando disfarçar com conversas sem assuntos e piadas sem graça.
Depois de certo tempo, veio o padre para fazer as exéquias, e, apesar das palavras bonitas e confortantes que ele disse, o achei meio mecânico, e, me perguntei quantas vezes ele já havia dito aquelas mesmas palavras naquele dia. Mas tudo bem é o trabalho dele, entretanto, penso que ele podia ser menos profissional e mais humano, ou, pelo menos tentar, sei lá, já devo estar escrevendo besteiras.
Quando chegou a hora. Sabe àquela hora dura de carregar o caixão em direção ao cemitério, me candidatei a ajudar a carregar. Pois era a minha última chance de estar perto dele e lhe prestar uma última homenagem, ou talvez seja porque sempre vi nos filmes que os filhos devem carregar o caixão, não sei ao certo, só sei que carreguei o caixão do meu pai até o túmulo, e me senti honrado em poder fazer isso. Quando eu arrumar coragem vou prestar uma homenagem ao meu pai, digo arrumar coragem por ser uma homenagem meio esquisita. Vou deixar a barba crescer igual à dele, e ele tinha uma barba enorme. É quem sabe qualquer dia eu me pegue barbudo feito meu pai.
Quando chegamos ao cemitério, a primeira coisa que vi foi uma fonte de água, uma espécie de chafariz, também vai ser a imagem que vai ficar gravada para sempre nos arquivos da minha memória. O cemitério era simples, todo gramado, não tem aquelas tumbas, ou capelas. Apenas uma simples lápide indicando o lugar do sepultamento.
Por fim o momento mais crucial de todos chegou, descer o corpo do meu pai naquele túmulo gelado. Houve um silêncio triste naquela tarde fria, depois lágrimas. Após o fechamento do sepulcro sabíamos que nesta vida não o veríamos mais. Eu como cristão que sou acredito na ressurreição dos mortos, e num desses dias espero poder dar mais um abraço em meu velho pai, nem que seja o último.

Que Deus me ajude!
Memento mortale est
João Ferreira Leite Luz

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